quinta-feira, 23 de maio de 2013

Prologue storyteller. - O Degrado Tradução / 1 Capítulo


            Left the radio on a low volume, the day had been a quite tiring. Decided to put a curve in the optical, even it looks silly, the radio on was a big change. The soundtrack presence in the room left an air of absence. Resisted and persisted and did not dare to touch the radio, knew if the radio did not play it would enforce the routine. The radio on changed the surrounding.
He took three pens and fifteen sheets, wrote duplex and the supremacy of the verses was wandering.   Thought in someone, thought on a name and baptized it as Filomena, in memory of the dead little dog named Filó. Gave eyes and ears, mouth and heart to Filomena.
He fed Filomena straight to the mouth, as mothers do from the placenta, the way he used to do with Filó when it was alive. Every night, whenever possible, spilled ink on the paper and gave form to Filomena’s life. On the first night gave the body traces, on the second gave her a place to live and on the third night gave Roberto, and along with Roberto, came the passion. Important to know that giving Roberto to Filomena the passion was secondary and was not under control of the man who turned the radio on. Filomena and Roberto made love every day, living happy whenever the man wrote. The ink-well never was empty.
Roberto, in love? Not properly as the word says, Roberto wanted sex and Filomena fulfilled it, she did not worry because she knew that would never get old. The man who appreciated music would not give her such displeasure.
In the night the man did not write, the reason why Filomena did not sleep, Roberto, furtively, went out of the paper and vanished. People say that he got married with a big eyes brunet girl, which works in a bank, next to Central do Brazil. Who knows, no one knows! The important is that the man returned writing on the night after and Filomena noticed Roberto’s absence, which, as the music, was too much present. Filomena tried to conceal, but did not resist for too long. In a threshold of madness and pain, Filomena said:
-          Lord, let me see Roberto, bring him back. Then , the man replied:
-          I cannot my daughter. It was his choice; there is nothing I can do.
-          But I cannot live without him; I will not handle this pain.
-          But you have already existed before his arrival, so you will not miss him that much my child, concluded the man. 
For days and weeks everything tried to get back to normal. The man was writting, Filomena was living, the radio was still on and Roberto has not give sign of art. Filomena got better and worst like something usual on the man’s duplex sheets, till one day… 
-          I cannot handle with so much saudade, so much pain. Forgive me my Lord, I want to die, impose me some disease and give me a less painful death than the missing of Roberto.
-          I cannot my child, the story has not finished yet, you need to get over it, and it soon will pass, replied the man who was listening to the music.
Filomena persisted for some days, suffered and smiled, remembered and cried, then, she said something that should not say:
-          I cannot take it anymore, I have no other love and there is nothing to do. I wish death now, more than Roberto.
-          My child, there is nothing to do.
-          Stop writing me, if you cannot take this felling out of my heart, if you cannot give Roberto back to me, at least, let me die. Stop writing me! Yelled Filomena.
The man, sad and crestfallen, turned off the radio and shut the ink-well. He thought about looking for Roberto, but realized this was crazy, he would never find, it would be like looking for Filó. Now, with the radio off, the lights off, Filomena slept. 
 The day after was Monday, at least to the man. Do not know if Filomena would have another day, just like Filó had not.
It was just a man writing.


Trad.: Gisele Rodrigues 

segunda-feira, 20 de maio de 2013


Quarta Capa - O Degrado

Limpou com a camisa lamacenta o corte no cotovelo que o tombo lhe proporcionou, Filó veio lhe lamber a ferida, talvez como um gesto de compaixão ou talvez como gesto de deboche ou talvez como gesto de quem não sabe o que faz. Queria chorar, teve vontade, enquanto via o Senhor dar-lhe as costas entrando no casarão, rodeado de conforto deixando o homem às mazelas da vida, queria usar a mangueira para lavar o corte e o corpo e, se possível, a vergonha da vida, no entanto, o medo de sair mais ferido e magoado da casa do Senhor lhe impediu e foi logo levando o que era seu pela cancela e caminhando à deriva. Levava consigo as roupas do corpo e as dores de toda uma existência de fracasso. Aquele que vive com as mãos na lavoura do mundo até nos céus há de bem garimpar. 

sábado, 20 de abril de 2013

Prólogo Contista - 1 Capítulo do livro O Degrado


          Deixou o rádio ligado em baixo volume, o dia havia sido assaz cansativo. Resolveu colocar uma curva na ótica, por mais que pareça tolo o rádio ligado era uma grande mudança. A presença da trilha sonora no quarto deixava um ar de ausência. Resistiu e persistiu e não ousou sequer tocar no rádio, sabia que se o rádio não tocasse iria lhe impor a rotina. O rádio ligado mudava o entorno.
      Pegou três canetas e umas quinze folhas, escreveu frente e verso e a primazia dos versos estava vagando. Pensou em um alguém, pensou em um nome e batizou de Filomena, em lembrança da falecida cachorrinha Filó, deu olhos e ouvidos, boca e coração à Filomena.
       Alimentava Filomena direto na boca, como as mães alimentam direto na placenta, assim como fazia com Filó quando esta era viva. Todas as noites, sempre que possível, derramava tinta no papel e dava forma à vida de Filomena. Na primeira noite deu os traços do corpo, na segunda noite lhe deu onde morar e na terceira noite deu Roberto e, junto com Roberto, veio a paixão. Importante saber que ao entregar Roberto à Filomena a paixão foi secundária e não estava sob o controle do homem que ligara o rádio, Filomena e Roberto se amavam todos os dias, viviam felizes sempre que o homem escrevia. O tinteiro nunca estava vazio.
        Roberto, apaixonado? Não propriamente como explicita a palavra, Roberto queria sexo e Filomena o preenchia, não se preocupava, pois, sabia que nunca iria envelhecer, o homem que apreciava música não lhe traria tal desgosto. Poderia amar Roberto para sempre.
        Na noite em que o homem não escreveu, e por isso Filomena dormia, Roberto, às escondidas, saiu do papel e desapareceu, dizem que ele se casou com uma morena de fartos olhos que trabalha no banco, próximo à Central do Brasil. Vai saber, ninguém sabe! O importante é que o homem voltou a escrever na noite posterior e Filomena notou a ausência de Roberto, que como a música, era por demais presente. Filomena tentou disfarçar, mas não aguentou por muito tempo. Em um limiar da loucura e da dor, Filomena disse:
            - Deus, deixe-me ver Roberto, traga-o de volta. Então o homem disse:
            - Não posso minha filha, foi uma escolha particular dele, não há como intervir.
            - Mas eu não posso viver sem ele, não vou aguentar essa dor.
        - Você já existia antes da chegada de Roberto, portanto não lhe fará tanta falta, minha criança, concluiu o homem.
      Por dias e semanas tudo tentava voltar ao normal. O homem escrevia, Filomena vivia, o rádio continuava ligado e Roberto não deu mais sinal de arte. Filomena melhorava e piorava como algo constante nas frentes e nos versos das folhas do homem, até que um dia...
            - Não aguento mais de tanta saudade, tanta dor. Perdoe-me, meu Deus, eu quero morrer, agora me imponha uma doença e me dê uma morte menos dolorosa que a falta de Roberto.
        - Não posso, minha criança, o conto ainda não terminou, você precisa superar, logo vai passar. Replicou o homem que ouvia música.
         Filomena persistiu por mais alguns dias, sofreu e sorriu, lembrou e chorou, então, foi quando disse o que não devia:
            - Não posso mais, não tenho outro amor e não há o que fazer. Eu desejo a morte agora mais do que Roberto.
            - Minha criança, não há o que fazer.
          - Pare de me escrever, se não pode tirar esse sentimento do meu peito, se não pode me devolver Roberto, então, que pelo menos me deixe morrer. Pare de me escrever, gritou Filomena.
       O homem triste e cabisbaixo desligou o rádio e tampou o tinteiro. Pensou em ir procurar Roberto, mas logo viu que era loucura, nunca encontraria seria como procurar Filó. Agora, com o rádio desligado, as luzes apagadas, Filomena dormia.
      O dia seguinte era segunda, pelo menos para o homem não sei se teria outro dia Filomena, assim como não teve Filó.
       Era só um homem escrevendo.